Por: Heloísa Jahn | 11/01/2018

Dentro de poucos dias, mais uma edição do Festival de Música de Santa Catarina (Femusc) começa em Jaraguá do Sul. Marcado para ocorrer de domingo (14) até o dia 27, o evento chega em sua 13ª edição com uma traje­tória de sucesso e se consolidou como o maior festival-escola da América Latina.

Ao longo desses anos recebeu cerca de sete mil alunos provenientes de mais de 40 países e promoveu milhares de concertos gratuitos para o público. Nos últimos anos, resistiu à crise financeira e apesar de reduzir números de vagas, manteve a qualidade do festival. Em 2018, o diretor-artístico, Alex Klein, afirma que a crise ainda não chegou ao fim, porém “a estrutura do Femusc pode ser vista como um sinal de que estamos sérios e dedicados a um desfecho positivo desta crise e que nossos alunos e público sairão com um passo à frente, ao contrá­rio da atitude reducionista que vemos em outros eventos e estados”.

À frente do festival desde a primei­ra edição, Klein fala, em entrevista ao OCP, sobre a edição deste ano, explica a formação do repertório e a escolha da ópera La Bohème, de Giacomo Puccini, que será a primeira apresentada na ínte­gra no festival. Além disso, ele comentou sobre o futuro do festival e a importância de iniciativas como o Femusc para atra­vessar a crise pela qual o país passa. “ As Belas Artes nunca foram tão necessárias quanto hoje no Brasil. A música é capaz de transmitir uma imagem abrangente dos problemas e soluções”, afirma.

O que o público pode esperar do 13º Femusc?

Há poder na estabilidade. O que o pú­blico pode esperar é a mesma solidez e organização minuciosa e eficiente do Femusc, com concertos regulares de duração prevista e uma distribuição eficaz de obras musicais específicas para gostos diferentes, do violão ao sinfônico, do shopping à Ópera, na Scar e fora dela, com professores re­nomados e alunos representando os maiores talentos de sua geração, pro­venientes de mais de 20 países.

Como percebe a evolução do festival, tanto como ferramen­ta para a formação de público quanto para a evolução dos mu­sicistas?

Esta é uma preocupação constante nossa. Não basta chamarmos excelentes professores e abrir a porta da frente da Scar. Precisamos entender quem é o aluno que circunstâncias eles vivem e trazem consigo. O sucesso do Femusc com os alunos (são já 13 anos de numerosas inscrições sem necessidade de promoção ou marketing formal) se deve a este diálogo, de entender o que eles buscam e criar um currículo progressivo dentro de um ambiente familiar e generoso. A cada ano, eu me alegro de ver alunos e alunas de vários países opinando, buscando um evento que os acolha como gente, como seres humanos merecedores de informação e crescimento. E, a cada ano, nos desdobramos para oferecer a eles justamente isso. Nosso corpo estudantil é a chave do sucesso do Femusc. Entre eles e os grandes professores há uma faísca de interação e produtividade, que ilumina todo o evento.

Qual o motivo da escolha da ópera La Bohème, de Giacomo Pucci­ni, para este ano? Com tem sido a evolução das montagens de ópera no festival?

As óperas, assim como todas as grandes obras, sinfonias e eventos especiais, são decididas após diálogo com todas as partes responsáveis pelo seu sucesso. Se encontramos questionamentos sérios a obra é descartada. La Bohème é um tí­tulo operático simbólico para o Femusc, é uma das óperas mais famosas do re­pertório e a primeira que apresentamos do grande repertório italiano. A obra é de tal complexidade que, normalmen­te, requer meses de preparo em uma casa de ópera profissional. E de fato a nossa Bohème já está em ação desde setembro quando foram escolhidos os papéis principais. Durante o Femusc, estão programadas mais de 150 horas  de ensaios para La Bohème, que no festi­val é a primeira ópera a contar com dois elencos e duas récitas: dia 26 à noite e dia 27 à tarde. Será também a primeira ópera a ser apresentada em sua integridade (as anteriores sofreram cortes) e, portanto, também a primeira a ser apresentada com um intervalo. Nossa expectativa para La Bohème é a mais alta possível, e a equipe toda está animada para o trabalho que nos espera.

A cada ano, o repertório também apresenta novidades. Como se dá a escolha do repertório e evolução nesse quesito?

Assim como o título da grande ópera, o re­pertório do Femusc raramente é escolhido diretamente por mim, diretor-artístico. Eu acredito que o desempenho dos mú­sicos aumenta quando eles apresentam obras de sua escolha e que representam um desafio pessoal. Portanto, na grande maioria, as obras apresentadas são fruto de sugestões de alunos e professores. Meu trabalho, assim como o das coordenadoras artísticas, Lorena Bianucci (geral) e Lau­ra Valladares (ópera e canto lírico), é de conectar as obras de maneira a servir os diversos interesses do Femusc, do aluno ao público. Uma de nossas prioridades também é verificar que o repertório apre­sentado é coerente com o nível dos alunos como apresentado em suas audições. Há uma fina linha divisória entre uma obra ser ambiciosa e ser fora do alcance de um aluno. Nosso objetivo é ficar sempre em­purrando esta divisória mais para cima, ensinando os alunos a romperem suas limitações anteriores, porém sem desani­má-los no processo de estudo e preparo.

Em 2018 o Femusc abriu mais vagas e também aumentou o número de dias. Isso já é um sinal que a crise financeira está ficando para trás?

Não. A crise segue. Mas, a estrutura do Fe­musc pode ser vista como um sinal de que estamos sérios e dedicados a um desfecho positivo desta crise e que nossos alunos e público sairão dela com um passo à frente, ao contrário da atitude reducionista que vemos em outros eventos e estados.

O Femusc é um festival consolidado, no que se pode arriscar nos próxi­mos anos? Como percebe o futuro do festival?

O futuro do Femusc é hoje. Temos o maior tesouro em mãos, que é o diálogo hierár­quico honesto e bem direcionado. Temos uma excelente diretoria, que dita as limita­ções de número de alunos e um orçamento factível. Temos uma excelente administra­ção, eficiente e sábia em lidar com as deci­sões difíceis. E temos uma equipe artística, incluindo professores de ponta, insaciável por alcançar um melhor desempenho de um corpo estudantil que nos assusta todos os anos com sua competitividade. O futuro é este. É difícil prever, neste momento, quais serão as ações específicas que o Fe­musc irá abraçar nos próximos anos, mas estou confiante de que sempre estaremos no lado produtivo da questão, procurando oferecer ao público jaraguaense um evento sem igual e que lhes traga muito orgulho.

 Na sua opinião, como está o cenário da cultura no Brasil e o da musica clássica? Houve uma redução de investimentos, como percebe que a área fica nesse contexto?

Muito triste e de certa forma autopredató­rio. Centenas de empregos foram perdidos em orquestras que encerraram atividades e em outras que reduziram suas tempo­radas. Escolas de música e universidades sofrem com apoio estatal limitado. Eu digo “autopredatório” porque os talentos não param. É ilógico esperar que nossos jovens talentos irão se acomodar às limitações im­postas em seus estudos e carreiras. Muitos já partem para o exterior e, uma vez lá, há sempre a tentação de permanecerem e assim contribuir para o desenvolvimento cultural daquele país. O Brasil vai ficando para trás.

Passamos um período conturbado no Brasil, tanto política como financeiramente falando. Como você observa o papel da música e da cul­tura na vida das pessoas quando o país atravessa por esse momento?

As Belas Artes nunca foram tão neces­sárias quanto hoje no Brasil. A música é capaz de transmitir uma imagem abran­gente dos problemas e soluções. As gran­des obras deste Femusc são muitas (La Bohéme, 4ªs Sinfonias de Gustav Mahler e de Johannes Brahms, a 8ª Sinfonia de Antonin Dvorak, o Octeto para cordas de Feliz Mendelssohn, o Concerto para Violino de Tchaikovsky, assim como sua Serenata para Cordas, entre tantas ou­tras) e são testemunho do melhor que a humanidade pode alcançar e nos convi­dam a fazer a pergunta: “o que vemos ao nosso redor que represente este melhor da humanidade?”. Vamos lembrar que a Alemanha de Mendelssohn, a Itália de Puccini, a Rússia de Tchaikovsky e as perseguições antissemitas contra Mahler não eram algo de causar lá tanto orgulho à humanidade, mas que, apesar disso, eles se esforçaram para tirar desses mo­mentos a inspiração para produzir obras que nos trazem dignidade e expectativa, independentemente de onde estamos no mundo. O Brasil perde ao retirar apoio a estas manifestações culturais e deixar seu povo à deriva culturalmente.

É ilógico esperar que nossos jovens talentos irão se acomodar às limitações impostas em seus estudos e carreiras. Muitos já partem para o exterior e, uma vez lá, há sempre a tentação de permanecerem e assim contribuir para o desenvolvimento cultural daquele país. O Brasil vai ficando para trás