Por: Rafael Verch | 5 anos atrás

Se existe um grande segredo para viver bastante não é a pessoa mais idosa de Jaraguá do Sul que sabe apontá-lo. Completando 111 anos hoje, Alida Grubba mantém uma vida comendo o que gosta, passeando, indo ao banco todo mês, dormindo bem e até pescando quando tem oportunidade. Com excelente aparência e “boa de cabeça”, não liga tanto para a quantidade de anos que está completando. Apenas diz que gosta de viver e fica tranquila em relação à morte. Ao reforçar essa tranquilidade, ela solta uma frase que pode não ser lógica, mas que traz uma reflexão com a certeza do fim. “Viver toda a ‘vida’ ninguém vive”, declara.

Em casa, mantém os móveis antigos e bem preservados. Com bastante espaço para locomoção, a cama fica a poucos metros da poltrona, de onde gosta de assistir aos jogos de futebol. O imóvel foi construído pelo pai, Bernardo Grubba, em 1905, e está em processo para ser tombado como patrimônio histórico do município.
Sobre a esperança de viver mais, ela afirma que acredita que o seu tempo de vida está determinado desde quando nasceu. Uma coisa que não esquece é de uma amiga alemã que veio para Jaraguá do Sul e ‘tinha um avô que olhava na mão da pessoa e dizia quanto tempo ela iria viver’. E nem ele foi capaz de precisar o tempo de vida de Alida. “Ele apenas dizia pra mim: a senhora vai ficar velha. Todo mundo quando nasce tem a hora marcada”, salienta.

O documento de identidade comprova: Alida Victoria Grubba Rudge nasceu no dia 10 de julho de 1903 e é uma das pessoas mais idosas de Santa Catarina. No Vale do Itapocu, não há registro de alguém com mais idade.  Ela é a segunda filha entre sete e a única que está viva. Tem um casal de netos e um de bisnetos, que moram em São Paulo. Todos os anos comemora a data em um evento especial. Desta vez, haverá um almoço para cerca de 80 pessoas em um restaurante.

Ao lembrar-se da infância, juventude e da vivência que ultrapassou um século, destaca que adorava ver as corridas de cavalo em São Paulo, ir ao cinema em Porto União, onde o pai tinha um comércio, e ressalta que sempre gostou de pescar. Ainda criança, chegava da escola e ia para a beira do rio pegar peixes. “Sempre tive sorte”, afirma. Hoje, a distração fica no jogo de baralho aos fins de semana com amigos.

Há dois anos, Alida não consegue mais andar. A falta de locomoção é a única observação da idosa quando fala de sua saúde. Os remédios que toma diariamente são para controlar a pressão arterial, colesterol, diabetes e combater a anemia. “Mas tudo está controlado e ela está muito bem”, garante a cuidadora Darci Holtz, 63, que está com Alida há 17 anos. “Me sinto bem, parece que nasci hoje. Não sinto que eu tenho essa idade. Só a perna que não ajuda”, insiste.

As horas de sono podem dar uma pista para longevidade. Além de não precisar tomar remédios para dormir, pega no sono a noite inteira e em várias partes do dia. “Se ela vive tanto tempo assim, com certeza é porque dorme bastante”, observa a cuidadora. O café da manhã é preparado com pão, mamão e muito mel. No almoço, o prato é feito com batatinha, aipim, molho e carne. “Nada faz mal. Como só o que eu gosto. Não gosto muito de feijão”, observa Alida. À noite, o jantar é preparado com sopa e pão.

No dia a dia, ela lê jornal e reforça que sempre gostou dos livros. O gosto não fica apenas na leitura, mas, no desejo de aparecer bem. Para receber a reportagem, se preparou com roupa, cabelo e maquiagem. E, ao ver a câmera ser ligada, perguntou a Darci: “Você me penteou?”.

Família e amigos vão celebrar o aniversário

O único filho de Alida é Adhemar Rudge, de 87 anos, que mora em São Paulo. “Esse também está bom de idade, né?”, diz a mãe antes de uma sonora gargalhada. Ela ficou viúva em 1953.  Ao falar da mãe, Adhemar, que é coronel reformado do Exército Brasileiro, mostra orgulho. “Isso é muito bom, que ela esteja viva. Talvez não tenha alguém mais velho em Santa Catarina”, observa. Neste sábado, a família se junta aos amigos para celebrar a nova idade. “Vem muita gente, ainda gosto muito dessas festas”, diz a aniversariante.

As centenárias 

As mulheres são a maioria das pessoas com mais de 100 anos no país. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, nove pessoas estavam nessa faixa etária no Vale do Itapocu: três mulheres e dois homens em Jaraguá do Sul, um homem em Guaramirim, duas mulheres em Massaranduba e outra em Corupá. Naquele ano, havia 405 pessoas centenárias em Santa Catarina. Do total, 279 mulheres e 126 homens. No Brasil, o número chegava a 24.236 pessoas, sendo 70% do sexo feminino.