Por: ocp | 8 anos atrás

Sequência de terremotos de até 9 graus na escala Richter, tsunami capaz de causar ondas de dez metros de altura e prejuízos em três centrais nucleares, com ameaças de contaminação do ar. Estimativa de seis mil mortes e cerca de 500 mil atingidos. Falta de água potável, comida e, principalmente, de informações concretas sobre os riscos futuros.

 

País vive caos após tragédias. (Foto: Divulgação) 

 

A situação de caos no Japão, iniciada na última sexta-feira, comove e preocupa o mundo inteiro. Mas somente quem está próximo às regiões atingidas consegue mensurar o drama vivido pelos japoneses e também estrangeiros erradicados no país.

É o caso da moradora de Jaraguá do Sul, Eliane da Silva Shiratu, 25 anos, que há nove meses está em Toyohashi-Shi, a cerca de 430 quilômetros de Sendai, na Província de Miyagi, região mais atingida pelas catástrofes. Casada com o atleta e ex-jogador do Juventus, Gilcemar Alves da Silva, 27 anos, ela viajou para o outro lado do mundo para acompanhar o marido, que recebeu convite para trabalhar na região. Os dois têm uma filha, Isabella, de dois anos, e primos que também vivem no Japão.

Descendente de japoneses, e ex-moradora de Jaraguá do Sul desde os nove anos, a jovem concedeu entrevista exclusiva ao O Correio do Povo através de e-mail para falar sobre o clima de medo e insegurança que se espalhou por todo o território japonês. Ela relata os momentos de pavor vividos durante os primeiros tremores e revela que a saudade de casa, dos amigos e, principalmente, da família aumenta diante dos momentos difíceis enfrentados no exterior.

O Correio do Povo: Onde você e seu marido estavam no momento da tragédia?

Eliane Shiratu: No dia do terremoto eu estava trabalhando, eram 15h40 mais ou menos quando começamos a sentir tremores fortes, as coisas estavam balançando: placas, quadros e máquinas. Isso durou cerca de dois minutos e a sensação era de que eu estava em cima de uma esteira e alguém me puxava para lá e para cá. Na fábrica, evacuamos o local e fomos até o pátio, lá ficamos por cerca de 20 ou 30 minutos. Todos tentavam entrar em contato com a família pelos celulares, mas nenhuma ligação era possível, todas as conexões foram cortadas. Ali mesmo recebemos a informação de que o tremor havia ocorrido em Miyagi, na costa do país. Quando retornamos ao interior da fábrica, sentimos outro tremor, mais fraco e não durou nem 30 segundos. Já meu esposo estava em casa dormindo, acordou com a cama balançando e tremendo, disse que olhou para o teto e viu o lustre balançando muito e, segundo ele, as portas e armários de casa tremiam.

OCP: E quais as consequências desta tragédia na região onde você vive?

ES: Estamos distantes do local onde foram registrados os maiores tremores, mas pelas ruas o que se ouve são muitos comentários sobre o caos e sobre as pessoas desaparecidas. A comida ainda não está faltando, porém os estoques de água potável e de arroz são escassos e já acabaram em vários lugares aqui da nossa região. Estão nos alertando para fazermos estoque de comida e água, pois, se faltar, terão de importar e os preços vão subir muito. Mas nos lugares onde conseguimos comprar água, a quantidade por família era de uma caixa com seis garrafas de dois litros cada uma. Em alguns mercados ontem mesmo (dia 15), já não se encontrava água e as prateleiras de macarrão já estavam vazias também. As notícias que temos é de que em outras cidades mais próximas a região de Sendai, os mercados estão quase vazios.

OCP: O que a imprensa local tem divulgado sobre os terremotos?

ES: Sobre os terremotos, já informaram que eles vão continuar acontecendo no decorrer da semana, e realmente estão acontecendo, pois ontem (dia 15) ocorreram três até às 22h32 e nesta madrugada (dia 16) acordei próximo às 5h com mais um tremor. O que mais nos preocupa agora é a situação da usina em Fukushima, pois ninguém sabe ao certo o que acontece lá, todos estão apavorados com o perigo da radiação e contaminação. Pedem para sairmos com máscaras e guarda-chuva nas ruas, pois pode chover e com ela pode estar a radiação. Com isso também muitas pessoas estão indo embora do país, pois o medo agora não é mais com os tremores e sim com a contaminação do ar e da água. O Japão é um país muito pequeno e isto não levaria muito tempo para se alastrar por todo o território.  

OCP: Qual a orientação que o governo está repassando aos moradores?

ES: Em Sendai, o isolamento já passa dos 30 quilômetros. Mas como a radiação já chegou ao ar de Tóquio ninguém mais sabe o que vai acontecer, só sei que nesta região poucos saem às ruas, ficam em casa com portas e janelas fechadas e os que saem usam máscaras e guarda-chuvas.

OCP: E nestes momentos, aumenta a saudade dos familiares e amigos que estão no Brasil? Como estão se comunicando com eles?

ES: Agora que moramos em outro país podemos sentir a falta que amigos de verdade e principalmente a família fazem, e isso fica ainda mais forte em momentos difíceis como este. Aqui é muito difícil fazer amizades verdadeiras. As pessoas aqui pensam mais em trabalho, a vida é muito corrida e o dia parece ser muito mais curto. Mantemos contato com os brasileiros pelo telefone e pela internet.

OCP: Pretendem voltar ao Brasil?

ES: Temos passagem marcada para o final de maio, mas não estávamos pensando em voltar. Agora, com o que tem ocorrido nestes últimos dias, estamos pensando até em antecipar a viagem de volta.