Por: Rafael Verch | 4 anos atrás

Polícia Militar de Santa Catarina recebe BMW para compor sua frota”, “Cientistas encontram mensagem de Deus no DNA humano”, “Brasileiro inventa carro movido a água” e “Bebê nasce grávida de gêmeos em Hong Kong”. Existe grande possibilidade de você ter ouvido falar ou até acompanhado essas histórias enquanto navegava na Internet. Esses são apenas alguns exemplos das milhares de mentiras e notícias falsas que as pessoas publicam, curtem e compartilham diariamente nas redes sociais.

A notícia falsa ou o chamado “hoax” – palavra em inglês que significa fraude ou boato -, é bastante frequente e não é novidade na internet, mas ganha visibilidade maior dos internautas, principalmente por terem características “curiosas”.

Recentemente um dos boatos que circulou em peso nas redes sociais foi a publicação de um internauta de Curitiba afirmando que a Havan seria de propriedade do filho do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e havia sido comprada com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Em poucos minutos, a postagem recebeu 3,3 mil curtidas, 500 comentários e 900 compartilhamentos, com alcance de mais de 300 mil pessoas. “Muitos clientes e colaboradores estão enviando mensagens por e-mail e telefone mostrando-se indignados com estas calúnias e dando seu apoio ao nosso trabalho”, comenta o diretor da loja de departamentos, Luciano Hang, ao negar a informação veiculada pelo boato.

No início desta semana, a Havan publicou uma nota de esclarecimento, através de sua assessoria de comunicação, para desmentir a informação. Na publicação, a empresa esclarece que é de característica familiar e pertence a um único dono desde que surgiu, há 29 anos. A nota ainda explica que a Havan não possui nenhum empréstimo junto ao BNDES. “Tomamos esta atitude de esclarecimento para estabelecer a verdade e contribuir para que haja mais responsabilidade nas informações que circulam pela internet”, finaliza Hang.

A mestre em Jornalismo, Lívia Vieira, se dedica ao estudo da ética e de suas relações com as novas tecnologias no contexto do jornalismo online, e explica que as notícias falsas surgem porque a internet é um meio propício ao anonimato. “É relativamente fácil espalhar uma informação falsa criando um perfil ‘fake’, por exemplo. Dependendo do boato e da rede que o compartilha, o ‘estrago’ está feito”, analisa. Ela acrescenta que uma notícia falsa pode causar danos pequenos e passageiros ou até a morte, “como no caso da mulher acusada de sequestrar crianças, que acabou linchada no Guarujá”, exemplifica.

Com tantos boatos e mentiras, o internauta mais informado ainda confia pouco na internet como meio para se informar, com exceção de sites dos veículos já tradicionais. Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia 2015, praticamente metade dos brasileiros, 48%, usa internet. Já 37% destes costumam navegar todos os dias. A média é que os usuários fiquem conectados quase cinco horas por dia durante a semana e 4h24 nos sábados e domingos. Ao todo 67% usam a internet para se informar e saber das notícias, mas, apesar disso, a pesquisa ainda aponta que apenas 27% dizem confiar nas mídias eletrônicas, contra 52% nas notícias de jornais, rádio, televisão e revistas.

Entre os internautas brasileiros, 92% estão conectados por meio de redes sociais, das quais o Facebook lidera com 83%, seguido do WhatsApp, com 58%, e do Youtube (17%), números consideráveis e que mostram alta adesão às conexões em redes sociais, resultando em mais compartilhamentos de informações.

Os jovens estudantes Alexsander Soares, 18, Edilaine Pereira, 15, e Leidiane Castilhos, 15, fazem parte dos brasileiros que estão conectados diariamente, e contam que já foram vítimas das mentiras na internet. “O Facebook é o principal meio de divulgação dessas notícias. É muito comum ver coisas absurdas sendo compartilhadas cegamente pelas pessoas”, comenta Leidiane. “As pessoas são ainda muito imaturas na hora de fazer uso da internet. A gente tem que saber filtrar a informação que recebe”, completa Alexsander.

 

A verdade em um clique

O internauta conta hoje com a ajuda de sites já bastante conhecidos e experientes na resolução de mentiras. Um deles é o e-farsas.com, que desvenda mentiras da internet há 13 anos. O endereço recebe em média 200 mil visitas por semana e 100 pedidos de pesquisas por dia.

O analista de sistemas, Gilmar Henrique Lopes, de 39 anos, é o criador do site e conta que a ideia é usar a internet como ferramenta para revelar as verdades por trás de publicações equivocadas na web. “São muitas histórias absurdas e mentirosas que circulam pela internet diariamente, costumo dar bastante preferência ao que está relacionado com a saúde. Muitas vezes as pessoas acabam deixando de fazer um tratamento convencional ao acreditar em informações que não procedem”, comenta.

Segundo ele, a princípio, a ideia de gerar notícias falsas era somente gerar visita em sites ou gerar e-mails do tipo “spam”, que são as mensagens eletrônicas enviadas sem o consentimento, despachadas para um grande número de pessoas, contendo propagandas e até vírus. Mas o que vem acontecendo hoje em dia, de acordo com Lopes, é uma certa confusão dos próprios internautas. “Temos na internet uma gama grande de informação, e a pressa de divulgar as coisas, sem saber se é realmente verdade, pode resultar nisso. Muita gente acaba lendo só o título e já compartilha do jeito que entendeu”, explica.

Entre as dicas para identificar uma notícia falsa, ele aponta que histórias não datadas são o primeiro ponto a ser analisado, mas com um tempo de buscas no próprio Google se consegue encontrar algo que já foi divulgado em outros momentos, podendo ser uma notícia velha ou um boato voltando a circular. Geralmente também é colocado o nome de alguma instituição para dar credibilidade à publicação e, nesse caso, pode ser feita uma busca no site da entidade, e ver se há algo relacionado. Procurar a notícia em sites de informação tradicional, como os de jornais, também é uma boa forma para confirmar a veracidade.

 

Confira aqui alguns boatos que viralizaram

Suzane von Richthofen vai apresentar programa infantil

A notícia apareceu nas redes sociais em abril de 2015 e afirmava que a jovem – que está presa por participação no assassinato dos pais – estaria para sair da prisão já com contrato assinado para apresentar um programa infantil na Rede Globo. Muita gente compartilhou se dizendo indignada.

 

Casal de São Paulo dá ao filho o nome de Facebookson, em homenagem à rede social

A falsa história do menino que teria sido batizado como “Facebookson” foi criada pelo site humorístico Sensacionalista, famoso pela publicação de  histórias engraçadas e falsas.

 

Agulhas contaminadas com HIV em cinemas

Sem fontes confiáveis publicadas, especialistas garantem que é quase impossível ser contaminado desta forma. O vírus HIV sobrevive pouquíssimo tempo fora do organismo.

 

BMW doa viatura para Polícia Militar de SC

O carrão da foto foi emprestado por uma concessionária de São José (SC) exclusivamente para exposição da corporação militar em comemoração por seus 180 anos.

 

Combate às notícias falsas no Facebook

Diante dessas e de muitas outras situações enganosas, em janeiro deste ano o Facebook criou um recurso que informa quando uma notícia é falsa. A atualização reduz a distribuição no “feed de notícias” e adiciona uma anotação aos posts que muitas pessoas tenham marcado como notícias falsas. Na prática, posts identificados como falsos por meio do botão “denunciar publicação” vão passar a contar com a seguinte mensagem na parte superior: “Muitas pessoas no Facebook estão afirmando que esta história contém informação falsa”.

ENTREVISTA – Edgard Matsuki, dono do BOATOS.ORG

Outro website que o internauta pode recorrer é o boatos.org, criado pelo jornalista Edgard Matsuki, de 30 anos, em 2013. A página também é voltada à prática de desmentir falsas notícias e possui uma média de 15 a 20 mil visualizações por dia. Durante o período eleitoral, o site chegou a receber 1,3 milhão de visitas por mês. Matsuki trabalha como repórter na Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e é freelancer pelo portal da Uol. Confira a entrevista com o jornalista:

OCP Online: Como o boatos.org surgiu?

Edgard Matsuki: Quando comecei a trabalhar com pautas de tecnologia no jornalismo online me deparei com as histórias falsas que enganam as pessoas nas redes socais. O Boatos.org surgiu de um “buraco” que acabei percebendo entre informações falsas online e a mídia tradicional. Faltava um veículo segmentado que desmentisse as histórias.

OCP: Por que acha que surgem tantas notícias falsas na internet?

E.M.: Existe má-fé em alguns casos, porém, isso não é regra. Acho que há basicamente quatro motivos que levam uma pessoa a espalhar boatos: confirmar uma tese que ela já tem pré-concebida, mesmo que ela esteja errada; aparecer na internet; desejo de prejudicar alguém ou mudar a opinião das pessoas.

OCP: Como discernir o que é verdade e o que é mentira na timeline do Facebook ou na caixa de entrada do e-mail?

E.M.: Não tem muito segredo, a dica é ser cético em relação ao que se lê online. Nesse sentido, dar uma checada em informações sempre é válido. Se você vir algo estranho na web, não custa “dar um Google” e saber se sites confiáveis já deram a informação.

OCP: Quanto tempo você demora para apurar as informações de uma notícia falsa?

E.M.: É variável. Algumas são identificáveis em 30 segundos, enquanto outras podem levar dias. Mas em média, verifico um boato “standart” em cerca de 30 minutos.